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Líderes da pirâmide cripto Trust Investing são condenados a 16 anos de prisão

Chega ao fim o julgamento da pirâmide financeira Trust Investing, que roubou R$ 4 bilhões e milhares de brasileiros

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Os fundadores da Trust Investing, Fabiano Lorite (direita), Diego Chaves (centro) e Claudio Barbosa (esquerda). (Imagem: Reprodução/Portal Global Trust)

Cinco anos após aplicarem um golpe de criptomoedas que roubou R$ 4 bilhões de 1,3 milhão de brasileiros, os líderes da pirâmide financeira Trust Investing foram condenados a penas que chegam a 16 anos de prisão.

O julgamento, que se arrastou por anos na 3ª Vara da Justiça Federal de Campo Grande/MS, foi concluído com a publicação da sentença pelo juiz federal Felipe Alves Tavares no Diário Oficial de Justiça na terça-feira (27).

Além das sentenças, os réus também foram alvos de multa milionária por danos morais coletivos. O grupo deve pagar conjuntamente R$ 10 milhões de indenização, somados às multas individuais que, juntas, totalizam 2.750 salários mínimos (mais de R$ 3,3 milhões com base nos valores da época dos crimes), além das custas processuais.

A decisão confirma que a Trust Investing operava uma pirâmide financeira que usava o suposto trade de criptomoedas e promessas de lucros irreais como isca para atrair as vítimas. Segundo o magistrado, o grupo operava uma instituição financeira ilegal, sem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou do Banco Central, utilizando o capital de novos investidores para pagar os antigos, o clássico “Esquema Ponzi”.

O parecer detalha o funcionamento da organização e aponta que os réus tinham plena consciência da ilicitude do negócio. Em conversas interceptadas, o termo “rodar a roda” era utilizado internamente para descrever a necessidade constante de entrada de novos aportes para evitar o colapso do sistema.

Nas sentenças, o juiz impôs o regime inicial fechado para a maioria dos líderes, condenando Diego Ribeiro Chaves e Diorge Roberto de Araújo Chaves a penas idênticas de 16 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão, somada a 1 ano, 11 meses e 10 dias de detenção.

Fabiano Lorite de Lima recebeu 16 anos e 1 mês de reclusão, além da mesma pena de detenção dos sócios. Ivonélio Abrahão da Silva foi sentenciado a 13 anos, 10 meses e 26 dias de reclusão; Patrick Abrahão Santos Silva recebeu 12 anos, 2 meses e 8 dias de reclusão; e Cláudio Barbosa, único em regime semiaberto nesta ação, foi condenado a 7 anos e 11 meses de reclusão.

Os crimes da Trust Investing

O juiz fundamentou as condenações em cinco pilares principais:

Fraude e manipulação: O grupo criou criptomoedas próprias (Truster Coin e Trust Energy) e manipulou artificialmente seus valores, chegando a uma valorização de 38.000% antes de realizar um rug pull (retirada repentina de liquidez), deixando os investidores com ativos sem valor.

Ataque hacker fabricado: Para justificar a suspensão dos pagamentos quando o fluxo de caixa diminuiu, os líderes inventaram um “ataque hacker” e uma suposta auditoria que nunca existiu, ganhando tempo para ocultar patrimônio.

Falsos lastros e crimes ambientais: A empresa prometia garantias em esmeraldas (Trust Diamond). A investigação comprovou que a extração das pedras era ilegal, realizada sem licença ambiental, configurando usurpação de bens da União.

Lavagem de dinheiro: Os lucros eram ocultados por meio de uma rede de empresas de fachada, como a Victory Pedras Preciosas e a Zyon Tecnologia, e até mesmo por meio de uma igreja, o Ministério Internacional Restaurando as Nações.

Ostentação e bens de luxo: O dinheiro dos investidores financiou a compra de carros de luxo (Porsches, BMWs e Land Rovers), embarcações e imóveis, frequentemente registrados em nome de terceiros para dissimular a propriedade.

O juiz decretou ainda o perdimento, em favor da União, de dezenas de bens apreendidos, incluindo veículos de luxo, joias, relógios, gado e valores bloqueados em contas bancárias. Uma lancha (Nuage III) e um veículo Audi A5 deverão ser devolvidos a terceiros considerados compradores de boa-fé.

Os passaportes dos réus permanecem retidos, e eles estão proibidos de deixar o país. Os acusados poderão recorrer da sentença em liberdade.

Relembre o caso da Trust Investing

A Trust Investing era uma pirâmide financeira que dizia ter 1,3 milhão de clientes em mais de 80 países, prometendo lucros de 300% ao ano através do suposto investimento em Bitcoin. Todo o esquema, no entanto, não passava de uma fraude. No final de 2021, quando a empresa não conseguia mais alimentar a pirâmide com o capital de novos entrantes, deixou de pagar os investidores, alegando ter sido vítima de um ataque hacker.

Um ano após a suspensão dos saques, a polícia federal realizou a operação La Casa de Papel para prender os líderes do esquema – embora hoje todos estejam soltos. O prejuízo deixado por eles aos investidores é estimado em R$ 4,1 bilhões, captados desde o início das operações da empresa em 2019.

Conforme descrito pela próprio Justiça brasileira, a Trust Investing representava uma “organização criminosa dedicada à prática de crimes contra o sistema financeiro nacional, estelionato e lavagem de dinheiro, especializada na captação de recursos financeiros de terceiros, a pretexto de gerir os respectivos investimentos, induzindo e mantendo em erro os investidores sobre a natureza dos negócios desenvolvidos, ao prometer-lhes lucros extraordinários e impraticáveis, que na verdade beneficiaram apenas os líderes do topo, constituindo-se típico esquema de pirâmide financeira”.

Conforme descobriu o Portal do Bitcoin na época, Cláudio Barbosa, que era diretor de tecnologia da Trust Investing, já fez negócios com Glaidson Acácio dos Santos, o “Faraó do Bitcoin” por trás da pirâmide financeira da GAS Consultoria

Cláudio e Glaison transacionaram cerca de R$ 233 mil entre si em 2020. O motivo dessa movimentação, no entanto, segue um mistério para as autoridades. 

Documentos obtidos pela reportagem revelaram que a movimentação entre os piramideiros aconteceu por intermediação da empresa Blockskip, criada por André Horta, o mesmo fundador da exchange brasileira BitcoinToYou, que em abril de 2024 sumiu do mapa e travou os saques dos clientes.

Essa não foi a primeira vez que as histórias da Trust Investing e da GAS Consultoria se cruzam. Durante a investigação sobre os crimes cometidos por Glaidson, a Polícia Federal descobriu que ele teria encomendado a morte de Patrick Abrahão, um dos principais líderes da Trust Investing que acabou preso na operação La Casa de Papel.

Glaidson via Patrick Abrahão como um “concorrente”, uma vez que ambos captavam investidores para seus esquemas de pirâmides no Rio de Janeiro. Para se proteger, Patrick chegou a deixar temporariamente o Brasil junto com a sua esposa na época, a cantora Perlla, em dezembro de 2021.

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